domingo, 8 de fevereiro de 2015

O suspiro da Vida

Uma história não se faz história sem personagens, e é aí que se encontra um demônio: a criação. Se há algo que possa se equiparar a criação de um mundo todo, é a de personagens. É uma tarefa bem complexa, embora não pareça. Não é só colocar um nome, a cor dos cabelos e dos olhos. Se queremos dar profundidade em nossa trama, fazer com que o personagem seja mais do que letras num papel, devemos observar vários detalhes. Vamos lá?

Primeiramente, devemos saber que há o exterior e o interior do personagem. O exterior, obviamente, é sua aparência física. A cor dos olhos, dos cabelos, enfim. O interior já é algo mais trabalhoso, tão trabalhoso que ele se mostra no decorrer de todo o livro ou saga, cada faceta sendo narrada dependendo da situação que o personagem enfrenta. Por isso, você precisa ter em mente mais ou menos como é o personagem que você quer. E como se consegue isso? Observando. Sim, observando as pessoas ao seu redor. No mundo real mesmo. O jeito que elas agem, falam, se vestem, olham e andam. Se for uma pessoa conhecida sua, há mais detalhes para se perceber. Suas emoções, seus trejeitos, seu modo de ver o mundo. O jeito de cada pessoa tem de amar, de odiar, de expressar seus sentimentos. Você precisará usar todas essas coisas no seu livro quando as mesmas são necessárias, pelo menos nos protagonistas. Personagens secundários, não tanto, e terciários (aqueles que eu considero totalmente irrelevantes), nada. Digo isso porque você se sentiria perdido se não conhecesse seu próprio personagem! É como viajar para um lugar que nunca ouviu o nome, não conhece o idioma falado, e não tem ao menos um mapa para orientá-lo. A analogia faz sentido, se for parar pra pensar.

Pois é, eu disse que era complexo.

Dizem que na Filosofia você responde perguntas com outras perguntas, e embora essa seja uma frase com intenção de humor, também faz sentido para os escritores. Vem cá: numa cena triste da sua história, como seu personagem reagiria? Ele só choraria, ou você é capaz de escrever um parágrafo inteiro falando da sua tristeza? E em uma cena de luta, como você descreveria a raiva do seu personagem? "Ele estava bravo" é meio óbvio. "Ele estava triste" também é. E então?

Lá em cima eu disse sobre observar as pessoas ao seu redor, mas não adianta você conhecer o jeito das outras pessoas se você não SE conhece. As coisas que você sente, como se expressa. Como resolve problemas. Suas dificuldades. Quando você se conhece, então está pronto para criar um personagem. O que nos leva a outro ponto: aptidões! Objetivos, vontades, ambições, seja como queira chamar.

Todas as pessoas têm algo dentro delas que anseiam mais do que o Garfield quando vê lasanha. Por que seu personagem não teria também? Ora, ele não é um objeto. Você tem que saber o que seu personagem seria capaz de fazer para atingir seus objetivos tão quanto deve saber suas vontades. Por mais que isso não apareça no começo ou no meio da história, você precisa saber tudo, ou pelo menos ter uma noção do que ele almeja. Obviamente isso pode se construir durante as narrativas, mas você deve saber o que escreve. Acontece algo no terceiro livro da sua saga que faz o seu personagem agir de tal jeito, entretanto, no primeiro livro ele não agia assim. O que poderia ser feito? Alguns diriam "eu justifico tal ação com um parágrafo imenso falando do porquê ele mudou tão repentinamente", outros "apago essa cena". Outros, ainda, se esquecem e deixam passar. Quando for parar pra ver, o coitado tem quinhentos objetivos, quinhentas vontades e nunca conseguiu fazer o que realmente queria. E não se limita só a essas facetas.

Do mesmo jeito que você se conhece, então deve conhecer seu personagem e fazê-lo conhecer a ele próprio. Pode parecer meio inception, não é? Quando eu falo que é um demônio de nós, escritores, não é à toa. Criar personagens é um desafio. Pegue um bloco de notas. Um papel. Ou vai um processador de textos mesmo. Escreva o que você quiser, começando pelo nome do personagem e sua aparência. Tudo. Faça um mapa dele. Não precisa ir para o mínimo do mínimo, como por exemplo, quantos centímetros mede seu nariz. Na sua história, quando um personagem fala com o outro, e você precisa escrever o que ele está vendo, ou os detalhes que você julga mais importantes naquela hora. Exemplo: uma cicatriz no rosto, a pálpebra inchada, o cabelo grisalho. Atenção deve ser prestada aí. Lembre-se que você é o narrador, seja em 1ª ou 3ª pessoa. E aí entra a observação. O que você vê quando olha para uma pessoa? Quais os detalhes que você observa com mais importância em seu rosto? Simples assim.

Por um momento, finja que o personagem é você. Não na sua construção física e mental, mas na visão de mundo, literalmente. O que ele enxerga, como ele reage às mudanças de clima, por exemplo, quando está ventando muito frio, o que ele sente quando come algo gostoso, o que ele sente quando encosta sem querer em um espinho... Lógico, você não vai colocar um dedo num espinho pra saber o que vem depois. Por quê? O que você sentira caso fizesse isso? Hmm... dor. Pois é. Seu personagem não sente dor? Não sente frio? Não tem fome, sede ou sono?

E, finalmente, você precisa saber em que momento colocar o quê. Descrever sua frustração quando algo errado acontece, sua tristeza num momento melancólico, sua raiva num momento estressante. Como dito lá em cima, "Ele estava bravo" é muito óbvio. Por que não fazê-lo ranger os dentes e cerrar os punhos, ou então socar uma parede? É por aí.

Bem, esse é o primeiro post depois de um hiato não intencional. Já vamos começar o ano com grande estilo, então. Até a próxima!